Belchior: Nem todo o que me diz: irmão, irmão!

domingo, junho 21, 2009

Nem todo o que me diz: irmão, irmão!

Dizia a antiga canção que "se o teu coração é igual ao meu, [...] meu irmão serás". A letra tinha uma proposta antipartidarista, mostrando que cristão é quem segue a Cristo e não a uma denominação.
Verdadeiros cristãos, no entanto, não precisam de canções para saberem que Igreja e Corpo não têm absolutamente nada a ver com denominações ou instituições religiosas, contudo, as canções continuam sendo necessárias, porquanto cristãos verdadeiros são poucos, e partidaristas uma incontável miríade, "tantos como a areia da praia".
"Irmão, você é benção na minha vida"; "Irmão, eu te amo"; "Paz do Senhor entre nós, irmão!". De verdade, alguém deixaria um irmão no ponto de ônibus, sob forte chuva, tendo espaço em seu confortável carro e indo para o mesmo bairro? Alguém deixaria seu irmão ficar sem luz, telefone, dinheiro de passagem ou até mesmo comida, tendo plenas condições de supri-lo? Alguém deixaria de visitar um irmão que estivesse doente? Alguém evitaria ir à casa de seu irmão por causa de desigualdade social? Quando encerra-se a reunião dominical, facilmente percebe-se que o termo “irmão” é utilizado apenas para designar um membro, um colega de séqüito.
O irmão Ronaldo veio do Espírito Santo para o Rio. Aqui, conheceu Cristo, recuperou-se do alcoolismo e conseguiu um trabalho na igreja – ganhava o suficiente para comer e se vestir, e, em troca, trabalhava o dia inteiro. Quase todas as noites também, em tudo que fosse necessário.
Não era estúpido, havia perdido um bom emprego na Odebrecht e sua família somente por causa do vício, e, embora soubesse que não recuperaria seu status quo, pôde ainda iniciar-se em uma nova profissão. Abriu um pequeno negócio de informática, alugou uma modesta casa e trouxe de volta sua família. Estava feliz, havia recuperado sua dignidade.
Achou-se no direito de deixar o trabalho de mais de uma década na igreja – sem levar um vintém sequer – para dedicar-se integralmente ao seu negócio. Cometeu terrível engano.
Pouco tempo depois foi acometido de um derrame que paralisou parcialmente seus movimentos, o suficiente para comprometer suas habilidades, além de dificultar novos contatos pela mudança em sua aparência.
Achou que poderia contar com seus irmãos. Outro engano. Ronaldo não tinha mais a mesma utilidade para a igreja, ficou lento e complexo na fala. Não servia mais. Ganhou uns trocadinhos e muito desprezo.
Quatro anos depois, sob muitas pás de terra, sozinho num quarto de uma oficina que lhe fora cedido, sofreu a primeira parada cardíaca numa manhã. Outras duas se sucederam até que o único irmão que não o abandonou notasse que havia algo errado com Ronaldo, que já não tinha mais voz para pedir socorro. Era tarde demais quando, à tarde, deu entrada no hospital.
Ao menos restou aos muitos outros irmãos e aos familiares a última despedida, a última mostra pública de consideração e estima. Outro engano. Foi enterrado quase sozinho. Eu estava lá, mas lembro muito bem que lhe disse que não iria mais lhe emprestar os ouvidos para ouvi-lo blasfemar. Ainda bem que aquele de quem meu irmão blasfemava, nunca, em momento algum o deixou, antes prometeu que estaria com ele todos os dias, que não o deixaria nem o abandonaria. Se fizesse sua cama no mais profundo abismo, ali estaria. Se subisse o mais alto dos montes, ali também estaria.

Irmãos, de verdade, cristãos, de verdade, são pouquíssimos.

"Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade". Mateus 7.21-23